{"id":7809,"date":"2014-01-22T10:00:15","date_gmt":"2014-01-22T12:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/forumjustica.vlannetwork.com\/?p=7809"},"modified":"2022-09-04T21:15:51","modified_gmt":"2022-09-05T00:15:51","slug":"pedrinhas-por-todos-os-cantos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/es\/pedrinhas-por-todos-os-cantos\/","title":{"rendered":"Pedrinhas por todos os cantos"},"content":{"rendered":"<p>11\/01\/2014\u00a0<em> <\/em> 03h00<\/p>\n<div>\n<p><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/opiniao\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/f.i.uol.com.br\/folha\/opiniao\/images\/selo-tendencias_debates.jpg\" alt=\"Tend\u00eancias \/ Debates\" width=\"100\" height=\"100\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/opiniao\/\"><\/a>A vis\u00e3o de corpos mortos, perfurados, decapitados no Complexo Penitenci\u00e1rio de Pedrinhas, em S\u00e3o Lu\u00eds\/MA, atingiu a opini\u00e3o p\u00fablica como um golpe, confundindo certezas pr\u00e9-concebidas acerca das pr\u00e1ticas punitivas no Brasil. Por certo, eram corpos mat\u00e1veis, desimportantes, corpos negros e pardos, an\u00f4nimos. Nenhuma novidade. Mas as imagens n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o facilmente ignoradas quanto estat\u00edsticas ou discursos de militantes de direitos humanos. As imagens pintam em cores fortes o genoc\u00eddio invis\u00edvel e silencioso diuturnamente posto em marcha por nosso sistema penal.<\/p>\n<p>As mais de duas d\u00e9cadas de caminhada pela democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira foram caracterizadas pela espantosa hipertrofia do Estado policial: al\u00e9m da pr\u00e1tica de tortura e mortes institucionalizadas, houve um crescimento exponencial do encarceramento e da piora das condi\u00e7\u00f5es a que est\u00e3o submetidas as pessoas presas.<\/p>\n<p>A puni\u00e7\u00e3o, no Brasil, afigura-se como espa\u00e7o de exce\u00e7\u00e3o \u00e0 legalidade. Nenhum dos Poderes constitu\u00eddos assume a responsabilidade pela gest\u00e3o dos amontoados de miser\u00e1veis que ocupam as masmorras brasileiras. O Judici\u00e1rio, que controla a entrada e a sa\u00edda do sistema, mostra-se extremamente rigoroso na aplica\u00e7\u00e3o das penas, mas, de forma contradit\u00f3ria, entende que a gest\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o penal compete exclusivamente ao Executivo. O Executivo, por sua vez, escuda-se por tr\u00e1s de argumentos or\u00e7ament\u00e1rios para deixar de cumprir a Lei de Execu\u00e7\u00f5es Penais e a Constitui\u00e7\u00e3o Federal, valendo-se da invisibilidade do c\u00e1rcere para que as viola\u00e7\u00f5es extremas de direitos fundamentais n\u00e3o sejam denunciadas. A tudo isso se soma a postura ideol\u00f3gica dos operadores do sistema penal, no sentido de promo\u00e7\u00e3o do encarceramento em massa da pobreza como forma de conten\u00e7\u00e3o de demandas sociais e neutraliza\u00e7\u00e3o das classes marginalizadas.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o evidenciada no Complexo Penitenci\u00e1rio de Pedrinhas n\u00e3o se afasta, em termos de precariedade e descaso, da maioria das unidades prisionais do Estado de S\u00e3o Paulo. Com superlota\u00e7\u00e3o maior do que a de Pedrinhas, o Centro de Deten\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria da Praia Grande possui 1.652 presos para 512 vagas. Disputam o mesmo espa\u00e7o presos condenados e esperando julgamento, presos que aguardam vaga em regime semiaberto e at\u00e9 mesmo pessoas com transtorno mental, para as quais a legisla\u00e7\u00e3o pro\u00edbe a pris\u00e3o. Nesse ambiente, n\u00e3o contam com profissionais de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o ou trabalho; n\u00e3o recebem produtos b\u00e1sicos de vestu\u00e1rio e higiene; a \u00e1gua \u00e9 racionada e insuficiente para saciar a sede ou mesmo tomar banho; recebem visita de familiares traumatizados ap\u00f3s uma humilhante revista.<\/p>\n<p>Diante do quadro de barb\u00e1rie, o Tribunal de Justi\u00e7a foi chamado a se manifestar e, em uma das a\u00e7\u00f5es, afirmou que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o demandava urg\u00eancia, pois \u00aba popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do local, de uma forma ou outra, tem sobrevivido, (sem) rebeli\u00f5es, fuga ou morte entre presos.\u00bb<\/p>\n<p>O exemplo acima denuncia o temer\u00e1rio abstencionismo do poder P\u00fablico e, notadamente, do poder Judici\u00e1rio, que deveria ser o guardi\u00e3o dos direitos fundamentais e, ao rev\u00e9s, aguarda passivamente que os eventos lament\u00e1veis ocorridos em Pedrinhas repitam-se e, de prefer\u00eancia, sejam filmados e expostos na m\u00eddia, para, apenas ent\u00e3o, quem sabe, sair de sua zona de conforto. Por ora, os doutores permanecem desviando o olhar da bomba-rel\u00f3gio carcer\u00e1ria, esperando que o caso seja esquecido. Enquanto isso, nas celas, nos raios e pavilh\u00f5es, fora das vistas de todos, o descaso diante da dor silenciosa acelera a ru\u00edna da equivocada pol\u00edtica de \u00abseguran\u00e7a\u00bb de encarceramento em massa, sendo o caso de Pedrinhas apenas um exemplo do qu\u00e3o tr\u00e1gico pode ser o colapso que se prenuncia.<\/p>\n<p><strong>BRUNO SHIMIZU<\/strong>, 29, e\u00a0<strong>PATRICK CACICEDO<\/strong>, 31, s\u00e3o defensores p\u00fablicos do Estado de S\u00e3o Paulo e coordenadores do N\u00facleo Especializado de Situa\u00e7\u00e3o Carcer\u00e1ria da Defensoria P\u00fablica de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/opiniao\/2014\/01\/1396214-bruno-shimizu-e-patrick-caciedo-pedrinhas-por-todos-os-cantos.shtml\">http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/opiniao\/2014\/01\/1396214-bruno-shimizu-e-patrick-caciedo-pedrinhas-por-todos-os-cantos.shtml<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>11\/01\/2014\u00a0 03h00 A vis\u00e3o de corpos mortos, perfurados, decapitados no Complexo Penitenci\u00e1rio de Pedrinhas, em S\u00e3o Lu\u00eds\/MA, atingiu a opini\u00e3o p\u00fablica como um golpe, confundindo certezas pr\u00e9-concebidas acerca das pr\u00e1ticas punitivas no Brasil. 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