{"id":4769,"date":"2013-01-23T10:06:48","date_gmt":"2013-01-23T12:06:48","guid":{"rendered":"https:\/\/forumjustica.vlannetwork.com\/?p=4769"},"modified":"2022-09-04T21:16:23","modified_gmt":"2022-09-05T00:16:23","slug":"babas-e-empregadas-domesticas-relacoes-que-perpetuam-racismo-e-machismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/es\/babas-e-empregadas-domesticas-relacoes-que-perpetuam-racismo-e-machismo\/","title":{"rendered":"Bab\u00e1s e empregadas dom\u00e9sticas: rela\u00e7\u00f5es que perpetuam racismo e machismo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/maria_jose2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/maria_jose2.jpg\" alt=\"\" title=\"maria_jose\" width=\"550\" height=\"366\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4776\" srcset=\"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/maria_jose2.jpg 550w, https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/maria_jose2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><br \/>\n<em>Maria Jos\u00e9 dos Anjos Alves, de 18 anos, afirma ter trabalhado durante quase dois anos em uma resid\u00eancia da cidade de Riachuelo, como empregada dom\u00e9stica, limpando a casa, cuidando dos filhos da patroa, de 6h \u00e0s 18h, de domingo a domingo, sem f\u00e9rias, sem feriados e recebendo apenas R$ 200 por m\u00eas. Hoje fora do emprego, ela pretende ingressar na Justi\u00e7a cobrando seus direitos. E, se depender das novas regras que o pa\u00eds pode aprovar em rela\u00e7\u00e3o aos empregados dom\u00e9sticos, esses direitos ser\u00e3o cada vez mais amplos. Foto de Adriano Abreu\/Tribuna do Norte.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Texto de Renata Corr\u00eaa e Srta. Bia.<br \/>\n<\/em><\/strong><br \/>\nDesde o fim de semana roda a internet o texto: Viagem levando bab\u00e1s. Se n\u00e3o conseguir l\u00ea-lo no link original, h\u00e1 uma c\u00f3pia aqui. \u00c9 o relato de uma vis\u00e3o casa grande\/senzala que a sociedade brasileira carrega desde os tempos da escravid\u00e3o. A bab\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma trabalhadora com todos os direitos respeitados, \u00e9, antes de tudo, uma servi\u00e7al, que numa viagem familiar deve estar inteiramente dispon\u00edvel e ainda agradecer por ter tido a oportunidade de viajar. Alguns trechos s\u00e3o bem ilustrativos:<\/p>\n<p><em>\u00abNa minha opini\u00e3o, em algumas ocasi\u00f5es as bab\u00e1s s\u00e3o extremamente \u00fateis, em outras s\u00e3o dispens\u00e1veis e em outras ainda s\u00e3o item de \u201cterceira\u201d necessidade. Enfim, acho que se bem ensinadas, elas podem quebrar um galho danado e nem sempre v\u00e3o representar um novo integrante \u00e0 fam\u00edlia\u2026<\/p>\n<p>\u2026na ida no avi\u00e3o perguntou se podia aceitar o lanche, se tinha banheiro, se ela podia escolher aonde sentar, enfim, prefiro assim do que as folgadas que v\u00e3o logo pedindo refrigerante ou sei l\u00e1 o que e ainda adoram falar suas experi\u00eancias pessoais de viagens ao exterior.<\/p>\n<p>\u2026Em outras oportunidades em que vc quer que ela coma antes porque o restaurante \u00e9 caro ou porque v\u00e3o outros casais vc pode dizer problemas, tipo assim, \u201chj vamos a um restaurante com a comidas muito diferentes que vai demorar ou muito caro e etc, ent\u00e3o vamos passar pra vc comer em algum lugar, vc prefere pizza ou Mc Donals\u201d, porque, lembre-se ela est\u00e1 trabalhando.<\/p>\n<p>\u2026Nesta segunda viagem ela ficou encantada, me mandou mensagem quando chegamos agradecendo e eu acho bonitinho a pessoa dar valor pq barato n\u00e3o sai uma viagem dessas pra gente. Ent\u00e3o , mais uma vez fica a dica: deixe tudo claro, pra n\u00e3o se arrepender depois\u2026\u00bb<\/em><\/p>\n<p>A mulher que escreveu esse post n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica que pensa dessa maneira, portanto, n\u00e3o adianta culpar e crucificar apenas essa pessoa. As rela\u00e7\u00f5es com trabalhadores dom\u00e9sticos no Brasil tem estreita rela\u00e7\u00e3o com nosso passado escravocrata. Assim como ela, h\u00e1 muitos homens e mulheres brasileiros que encaram os trabalhadores dom\u00e9sticos como pessoas que devem ter gratid\u00e3o por estarem empregadas e por terem a chance de conviver com uma fam\u00edlia de classe social alta. Isso, quando n\u00e3o os tratam como bens da fam\u00edlia, sem permitir qualquer tipo de vida particular.<\/p>\n<p><strong>Trabalho dom\u00e9stico e as mulheres negras<\/strong><\/p>\n<p>Segundo dados de 2005 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlio (Pnad\/IBGE), existem no Brasil cerca de 6,6 milh\u00f5es de pessoas no trabalho dom\u00e9stico, das quais 93,4% s\u00e3o mulheres. Destas, 55% s\u00e3o negras. De todas as mulheres que trabalham no Pa\u00eds, 17% s\u00e3o dom\u00e9sticas. O trabalho dom\u00e9stico como atividade remunerada \u00e9 muito desvalorizado socialmente, concentrando uma s\u00e9rie de aspectos excludentes, como baixa remunera\u00e7\u00e3o, jornada de trabalho longa e ilegalidade na contrata\u00e7\u00e3o. Influencia diretamente nas discrimina\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e ra\u00e7a, especialmente ao eleger um papel para a mulher negra na sociedade.<\/p>\n<p><em>\u00abInfelizmente, o 13 de maio n\u00e3o foi capaz de sepultar o passado escravista do nosso pa\u00eds. As reminisc\u00eancias desse per\u00edodo est\u00e3o presentes por todos os lados. Na viol\u00eancia policial contra a popula\u00e7\u00e3o negra, na morosidade em rela\u00e7\u00e3o a implementa\u00e7\u00e3o do sistema de cotas no ensino superior, na precariedade do acesso aos servi\u00e7os b\u00e1sicos garantidos pelo Governo. O trabalho dom\u00e9stico tamb\u00e9m \u00e9 parte desse processo hist\u00f3rico de invisibilidade e desrespeito \u00e0s afro-brasileiras.\u00bb <\/em>Refer\u00eancia: Carta aberta ao Grupo Antiterrorismo de bab\u00e1s, por Luana Tolentino.<\/p>\n<p>A desigualdade social brasileira tem bases nessas rela\u00e7\u00f5es. E, principalmente, na ideia de que \u00e9 um absurdo que empregadas dom\u00e9sticas, bab\u00e1s, porteiros, jardineiros ou serventes queiram sal\u00e1rios mais altos e os mesmos direitos trabalhistas que advogados, engenheiros ou servidores p\u00fablicos. Porque \u00e9 um absurdo que as pessoas que tenham uma bab\u00e1 nesse pa\u00eds tenham que cortar gastos, como uma viagem ao exterior, para pagar hora extra, f\u00e9rias e outros direitos.<\/p>\n<p><strong>Procuram-se dom\u00e9sticas ou servi\u00e7ais?<br \/>\n<\/strong><br \/>\nEssa semana tamb\u00e9m saiu no Estad\u00e3o uma mat\u00e9ria que mostra o quanto \u00e9 catastr\u00f3fico que o sal\u00e1rio de uma dom\u00e9stica esteja na faixa de mil reais: Procuram-se dom\u00e9sticas. Paga-se bem.<\/p>\n<p><em>\u00abCasada e m\u00e3e de duas crian\u00e7as pequenas, uma de oito e outra de seis anos, a advogada tem uma jornada de trabalho longa: fica cerca de 12 horas fora de casa diariamente e precisa de duas empregadas dom\u00e9sticas, uma que dorme no emprego e outra que vai e volta, para administrar o lar.\u00bb<\/em> O problema \u00e9 que Andrea ficou sem a empregada que vai e volta. Da\u00ed come\u00e7ou a peregrina\u00e7\u00e3o da advogada pelas ag\u00eancias de empregos dom\u00e9sticos em busca de uma nova profissional.<\/p>\n<p>O problema nesse caso \u00e9 apenas a falta de empregada? Por que essa mulher casada n\u00e3o tem ningu\u00e9m para dividir tarefas? Por que mulheres e homens trabalham 12 horas por dia e achamos normal? Por que \u00e9 preciso que uma das empregadas durma no emprego? Ela n\u00e3o tem casa? N\u00e3o tem sua pr\u00f3pria fam\u00edlia? Voc\u00ea, que est\u00e1 lendo esse texto, dorme no emprego? Como fazem as pessoas que trabalham 12  horas por dia, como muitas trabalhadoras dom\u00e9sticas, mas n\u00e3o tem dinheiro para contratar uma empregada dom\u00e9stica?<\/p>\n<p>O que as pessoas ir\u00e3o fazer, quando n\u00e3o houverem mais empregadas dom\u00e9sticas ou bab\u00e1s para contratar? V\u00e3o importar bab\u00e1s paraguaias ou bolivianas? Por que n\u00e3o questionamos os hor\u00e1rios de trabalho de todas as pessoas, para podermos ter tempo para cuidar das crian\u00e7as? Por que n\u00e3o lutamos por escolas em per\u00edodo integral e creches p\u00fablicas? Por que n\u00e3o propor lavanderias populares? Espa\u00e7os de lazer? Por que n\u00e3o pensar em elementos que poderiam nos ajudar na cria\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e nas tarefas dom\u00e9sticas, que demandam sim muito tempo, mas s\u00e3o coisas com as quais temos que lidar?<\/p>\n<p>Em dezembro de 2012, foi aprovada pela C\u00e2mara dos Deputados, a PEC que amplia direitos das empregadas dom\u00e9sticas. Ao inv\u00e9s de comemorarmos essa decis\u00e3o como mais um avan\u00e7o nos direitos trabalhistas, a maioria das mat\u00e9rias reclama do peso que isso ter\u00e1 nas contas do empregador. Essas pessoas provavelmente querem voltar ao tempo em que o sal\u00e1rio m\u00ednimo n\u00e3o aumentava anualmente. Por\u00e9m, qual o impacto que a falta de direitos trabalhistas teve na vida de milhares de pessoas durante anos? Deve haver at\u00e9 mesmo um impacto na economia dessa parcela da popula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o interessa pesquisar isso, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>Como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel contar com o bom senso para regular rela\u00e7\u00f5es de trabalho, principalmente dos trabalhadores dom\u00e9sticos, que n\u00e3o raro s\u00e3o submetidos a todo tipo de opress\u00e3o travestida de \u201cafeto\u201d e de que eles \u201cs\u00e3o da fam\u00edlia\u201d, as leis devem ser cumpridas.<\/p>\n<p>Trabalhadores que viajam a servi\u00e7o recebem hora extra, di\u00e1ria para alimenta\u00e7\u00e3o, transporte e n\u00e3o est\u00e3o \u00e0 servi\u00e7o 24 horas por dia. Por que um trabalhador dom\u00e9stico n\u00e3o estaria submetido as mesmas regras?<\/p>\n<p><strong>Maternidade e G\u00eanero<\/strong><\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a agressividade mal dirigida para autora do post, citado no in\u00edcio desse texto. Sim, o relato dela \u00e9 um retrato did\u00e1tico da desigualdade e do sistema de castas e privil\u00e9gios que assola o Brasil e as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, mas muitos coment\u00e1rios foram a respeito das escolhas pessoais dela a respeito da maternidade. Criticam o fato dela \u201cler uma revista\u201d enquanto a bab\u00e1 faz castelinhos de areia. Ser m\u00e3e n\u00e3o te obriga compulsoriamente a gostar de determinadas atividades. Algu\u00e9m questionou por que o marido n\u00e3o faz castelinhos ou senta a bunda na areia para brincar com a crian\u00e7a? Ou o quanto ele se dedica a dar aten\u00e7\u00e3o aos filhos? N\u00e3o questionamos, porque est\u00e1 subentendido que isso \u00e9 papel apenas da m\u00e3e.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 que quando falamos do trabalho dom\u00e9stico \u00e9 como se n\u00e3o fal\u00e1ssemos de trabalho ou de pessoas, falamos de objetos. Eu n\u00e3o questiono o fato de n\u00e3o dar para ser super-m\u00e3e, ora, as bab\u00e1s de nossos filhos sabem disso na carne, pois muitas vezes deixam os filhos delas com a vizinha, m\u00e3e, av\u00f3 para poderem cuidar dos nossos e algu\u00e9m parou pra pensar nisso ao fazer propostas que no final das contas reverberam o racismo incrustrado no Brasil? Refer\u00eancia: Quando foi que as bab\u00e1s viraram coisas? Durante a escravid\u00e3o, por Luka Franca.<\/p>\n<p>No fundo, a pol\u00eamica mostra como ainda estamos presos a uma vis\u00e3o de que o trabalho dom\u00e9stico \u00e9 um trabalho \u201cmenor\u201d, seja ele exercido pela m\u00e3e ou por uma empregada contratada. Questiona-se n\u00e3o s\u00f3 o valor pago para bab\u00e1s e diaristas, um trabalho menosprezado, n\u00e3o intelectual e majoritariamente feminino, como tamb\u00e9m questiona-se a maneira que cada mulher exerce a sua maternidade. Como se \u201ccuidar das crian\u00e7as\u201d fosse apenas sua responsabilidade e o companheiro n\u00e3o tivesse nenhuma participa\u00e7\u00e3o nessa rela\u00e7\u00e3o. Perdem patroas e empregadas. Perdem as mulheres como um todo, quando n\u00e3o entendemos que o exerc\u00edcio das fun\u00e7\u00f5es internas e dom\u00e9sticas s\u00e3o responsabilidade de todos os membros da fam\u00edlia, independente do g\u00eanero.<\/p>\n<p><strong>Desigualdade perpetuada<\/strong><\/p>\n<p>Para que a desigualdade social seja constantemente perpetuada \u00e9 preciso que ricos e pobres saibam quais s\u00e3o seus lugares e seus espa\u00e7os de poder. Da mesma maneira, mulheres e homens tem pap\u00e9is sociais pr\u00e9-estabelecidos. Qualquer pessoa que fuja ou n\u00e3o se encaixe nesse jogo pr\u00e9-estabelecido \u00e9 rejeitada socialmente. Quando n\u00e3o questionamos esse sistema perverso que tra\u00e7a linhas invis\u00edveis em nossas rela\u00e7\u00f5es sociais, perpetuamos o machismo e o racismo na sociedade, dentre outros preconceitos.<\/p>\n<p>Dessa maneira, arquitetos e engenheiros continuam projetando apartamentos com depend\u00eancia de empregada, j\u00e1 estamos exportando essa ideia para Miami. O cabelo afro n\u00e3o \u00e9 visto como sin\u00f4nimo de eleg\u00e2ncia e beleza. As mulheres s\u00e3o as \u00fanicas respons\u00e1veis pelos cuidados com as crian\u00e7as e pelas tarefas dom\u00e9sticas. Mulheres negras s\u00e3o preteridas em cargos que exigem boa apar\u00eancia. O per\u00edodo escravocrata foi h\u00e1 muito tempo e nossa realidade n\u00e3o tem nenhuma liga\u00e7\u00e3o com nossa hist\u00f3ria. Afinal, a carne mais barata do mercado sempre foi a carne negra.<\/p>\n<p>O fato de o mercado estar hoje mais favor\u00e1vel ao trabalhador fomenta comportamento inusitado. Andrea conta que, no primeiro m\u00eas de trabalho, a nova empregada j\u00e1 pleiteou o dep\u00f3sito do Fundo de Garantia do Tempo de Servi\u00e7o (FGTS). A contribui\u00e7\u00e3o ao FGTS para empregado dom\u00e9stico ainda n\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3ria, mas em breve deve virar lei.<em> \u201cIsso \u00e9 reflexo de uma economia aquecida. Hoje as empregadas dom\u00e9sticas est\u00e3o por cima da carne seca\u201d<\/em>, diz Andrea. Refer\u00eancia: Procuram-se dom\u00e9sticas. Paga-se bem.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogueirasfeministas.com\/2013\/01\/babas-e-empregadas-domesticas-relacoes-que-perpetuam-racismo-e-machismo\/\"><br \/>\nhttp:\/\/blogueirasfeministas.com\/2013\/01\/babas-e-empregadas-domesticas-relacoes-que-perpetuam-racismo-e-machismo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Jos\u00e9 dos Anjos Alves, de 18 anos, afirma ter trabalhado durante quase dois anos em uma resid\u00eancia da cidade de Riachuelo, como empregada dom\u00e9stica, limpando a casa, cuidando dos filhos da patroa, de 6h \u00e0s 18h, de domingo a domingo, sem f\u00e9rias, sem feriados e recebendo apenas R$ 200 por m\u00eas. 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