{"id":4522,"date":"2013-01-03T12:00:09","date_gmt":"2013-01-03T14:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/forumjustica.vlannetwork.com\/?p=4522"},"modified":"2022-09-04T21:16:23","modified_gmt":"2022-09-05T00:16:23","slug":"o-bolsa-familia-e-a-revolucao-feminista-no-sertao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/es\/o-bolsa-familia-e-a-revolucao-feminista-no-sertao\/","title":{"rendered":"O Bolsa Fam\u00edlia e a revolu\u00e7\u00e3o feminista no sert\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A antrop\u00f3loga Walquiria Domingues Le\u00e3o R\u00eago testemunhou, nos \u00faltimos cinco anos, a uma mudan\u00e7a de comportamento nas \u00e1reas mais pobres e, talvez, machistas do Brasil. O dinheiro do Bolsa Fam\u00edlia trouxe poder de escolha \u00e0s mulheres. Elas agora decidem desde a lista do supermercado at\u00e9 o pedido de div\u00f3rcio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/7WTIn03Ofe3lznigelvpixFSDlnGs5vCpnmzuKKNjrDNM1vYr5G_ngYeCaHbYWyc\/e.glbimg.com\/og\/ed\/f\/original\/2012\/11\/26\/postmarisanches_sertao.jpg\" title=\"O DINHEIRO DO BOLSA-FAM\u00cdLIA TROUXE PODER DE ESCOLHA \u00c0S MULHERES DO SERT\u00c3O (FOTO: EDITORA GLOBO)\" class=\"aligncenter\" width=\"620\" height=\"420\" \/><\/p>\n<p>Uma revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 em curso. Silencioso e lento &#8211; 52 anos depois da cria\u00e7\u00e3o da p\u00edlula anticoncepcional &#8211; o feminismo come\u00e7a a tomar forma nos rinc\u00f5es mais pobres e, possivelmente, mais machistas do Brasil. O interior do Piau\u00ed, o litoral de Alagoas, o Vale do Jequitinhonha, em Minas, o interior do Maranh\u00e3o e a periferia de S\u00e3o Lu\u00eds s\u00e3o o cen\u00e1rio desse movimento. Quem o descreve \u00e9 a antrop\u00f3loga Walquiria Domingues Le\u00e3o R\u00eago, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nos \u00faltimos cinco anos, Walquiria acompanhou, ano a ano, as mudan\u00e7as na vida de mais de cem mulheres, todas benefici\u00e1rias do Bolsa Fam\u00edlia. Foi \u00e0s \u00e1reas mais isoladas, contando apenas com os pr\u00f3prios recursos, para fazer um exerc\u00edcio raro: ouvir da boca dessas mulheres como a vida delas havia (ou n\u00e3o) mudado depois da cria\u00e7\u00e3o do programa. Adiantamos parte das conclus\u00f5es de Walquiria. A pesquisa completa ser\u00e1 contada em um livro, a ser lan\u00e7ado ainda este ano.<\/p>\n<p><strong>MULHERES SEM DIREITOS<\/strong><\/p>\n<p>As \u00e1reas visitadas por Walquiria s\u00e3o aquelas onde, \u00e0s vezes, as fam\u00edlias n\u00e3o conseguem obter renda alguma ao longo de um m\u00eas inteiro. Acabam por viver de trocas. O mercado de trabalho \u00e9 ex\u00edguo para os homens. O que esperar, ent\u00e3o, de vagas para mulheres. H\u00e1 pouco acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. Filhos costumam ser muitos. A estrutura \u00e9 patriarcal e religiosa. A mulher est\u00e1 sempre sob o jugo do pai, do marido ou do padre\/pastor. \u201cMuitas dessas mulheres passaram pela experi\u00eancia humilhante de ser obrigada a, literalmente, \u2018ca\u00e7ar a comida\u2019\u201d, afirma Walquiria. \u201c\u00c9 gente que vive aos belisc\u00f5es, sem direito a ter direitos\u201d. Walquiria queria saber se, para essas pessoas, o Bolsa Fam\u00edlia havia se transformado numa bengala assistencialista ou resgatara algum senso de cidadania.<\/p>\n<p><strong>BATOM E DANONE<\/strong><\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 mais liberdade no dinheiro\u201d, resume Edineide, uma das entrevistadas de Walquiria, residente em Pasmadinho, no Vale do Jequitinhonha. As mulheres s\u00e3o mais de 90% das titulares do Bolsa Fam\u00edlia: s\u00e3o elas que, m\u00eas a m\u00eas, sacam o dinheiro na boca do caixa. Edineide traduz o significado dessa op\u00e7\u00e3o do governo por dar o cart\u00e3o do benef\u00edcio para a mulher: \u201cQuando o marido vai comprar, ele compra o que ele quer. E se eu for, eu compro o que eu quero.\u201d Elas passaram a comprar Danone para as crian\u00e7as. E, a ter direito \u00e0 vaidade. Walquiria testemunhou mulheres comprarem batons para si mesmas pela primeira vez na vida. Finalmente, tiveram o poder de escolha. E isso muda muitas coisas.<\/p>\n<p><strong>O DINHEIRO LEVA AO DIV\u00d3RCIO E \u00c0 DIMINUI\u00c7\u00c3O DO N\u00daMERO DE FILHOS?<\/strong><\/p>\n<p>\u201cBoa parte delas t\u00eam uma renda fixa pela primeira vez. E v\u00e1rias passaram a ter mais dinheiro do que os maridos\u201d, diz Walquiria. Mais do que escolher entre comprar macarr\u00e3o ou arroz, o Bolsa-Fam\u00edlia permitiu a elas decidir tamb\u00e9m se querem ou n\u00e3o continuar com o marido. Nessas regi\u00f5es, ainda \u00e9 raro que a mulher tome a iniciativa da separa\u00e7\u00e3o. Mas isso come\u00e7a a acontecer, como relata Walquiria: \u201cNa primeira entrevista feita, em abril de 2006, com Quit\u00e9ria Ferreira da Silva, de 34 anos, casada e m\u00e3e de tr\u00eas filhos pequenos,em Inhapi, perguntei-lhe sobre as quest\u00f5es dos maus tratos. Ela chorou e me disse que n\u00e3o queria falar sobre isso. No ano seguinte, quando retornei, encontrei-a separada do marido, ostentando uma apar\u00eancia muito mais tranq\u00fcila.\u201d<br \/>\nA despeito do ass\u00e9dio dos maridos, nenhuma das mulheres ouvidas por Walquiria admitiu ceder aos apelos deles e dar na m\u00e3o dos homens o dinheiro do Bolsa. \u201cEste dinheiro \u00e9 meu, o Lula deu pra mim (sic) cuidar dos meus filhos e netos. Pra que eu vou dar pra marido agora? Dou n\u00e3o!\u201d, disse Maria das Merc\u00eas Pinheiro Dias, de 60 anos, m\u00e3e de seis filhos, moradora de S\u00e3o Lu\u00eds, em entrevista em 2009.<br \/>\nWalquiria relata ainda que aumentou o n\u00famero de mulheres que procuram por m\u00e9todos anticoncepcionais. Elas passaram a se sentir mais \u00e0 vontade para tomar decis\u00f5es sobre o pr\u00f3prio corpo, sobre a sua vida. \u00c9 claro que as mudan\u00e7as ainda s\u00e3o t\u00eanues. Ningu\u00e9m que visite essas \u00e1reas vai encontrar mulheres queimando suti\u00e3s e citando Betty Friedan. Mas elas est\u00e3o come\u00e7ando a romper com uma din\u00e2mica perversa, descrita pela primeira vez em 1911, pelo fil\u00f3sofo ingl\u00eas John Stuart Mill. De acordo com Mill, as mulheres s\u00e3o treinadas desde crian\u00e7as n\u00e3o apenas para servir aos homens, maridos e pais, mas para desejar servi-los. Aparentemente, as mulheres mais pobres do Brasil est\u00e3o descobrindo que podem desejar mais do que isso.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/\">http:\/\/revistamarieclaire.globo.com\/Mulheres-do-Mundo\/noticia\/2012\/11\/o-bolsa-familia-e-revolucao-feminista-no-sertao.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A antrop\u00f3loga Walquiria Domingues Le\u00e3o R\u00eago testemunhou, nos \u00faltimos cinco anos, a uma mudan\u00e7a de comportamento nas \u00e1reas mais pobres e, talvez, machistas do Brasil. O dinheiro do Bolsa Fam\u00edlia trouxe poder de escolha \u00e0s mulheres. Elas agora decidem desde a lista do supermercado at\u00e9 o pedido de div\u00f3rcio. Uma revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 em curso. 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