{"id":5727,"date":"2013-04-18T09:00:55","date_gmt":"2013-04-18T11:00:55","guid":{"rendered":"https:\/\/forumjustica.vlannetwork.com\/?p=5727"},"modified":"2022-09-04T21:16:19","modified_gmt":"2022-09-05T00:16:19","slug":"a-invisibilizacao-da-pobreza-e-dos-pobres-no-rio-olimpico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/a-invisibilizacao-da-pobreza-e-dos-pobres-no-rio-olimpico\/","title":{"rendered":"A invisibiliza\u00e7\u00e3o da pobreza e dos pobres no Rio Ol\u00edmpico"},"content":{"rendered":"<p>Por Renato Cosentino*<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/comitepopulario.files.wordpress.com\/2013\/04\/petrobras-rio-small-51219.jpg?w=584&#038;h=384\" class=\"alignnone\" width=\"584\" height=\"384\" \/><br \/>\nUma campanha publicit\u00e1ria internacional da Petrobr\u00e1s exibiu em 2011 fotografias do Rio de Janeiro, de Nova York e de Paris a 6 mil metros de altura, em alus\u00e3o aos 6 mil metros de profundidade de onde a empresa ir\u00e1 extrair \u00f3leo da camada pr\u00e9-sal. Em destaque na imagem do Rio a praia de Copacabana e o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar. Mais ao fundo a Zona Sul e Norte com o Cristo Redentor e o Maracan\u00e3. Faltaram, por\u00e9m, as dezenas de favelas que comp\u00f5em o cen\u00e1rio da regi\u00e3o. S\u00f3 no Rio uma parte da cidade foi apagada com recursos de edi\u00e7\u00e3o de imagem.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em 2011 uma mat\u00e9ria do jornal O Globo noticiava que, a pedido da Prefeitura do Rio, o Google iria diminuir a presen\u00e7a das favelas no seu servi\u00e7o Google Maps. O fato se concretizou em 2013, com a exclus\u00e3o da palavra \u201cfavela\u201d em praticamente todo o mapa, a hierarquiza\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es com as favelas reduzidas ao mesmo destaque das ruas e o sumi\u00e7o de algumas comunidades. Em 2010 j\u00e1 haviam sido erguidas barreiras ac\u00fasticas, ou muros, nas duas principais vias expressas de liga\u00e7\u00e3o do aeroporto Internacional do Gale\u00e3o ao Centro\/Zona Sul e Barra da Tijuca. Uma pesquisa revelou a percep\u00e7\u00e3o dos moradores e dos motoristas que passam pelas vias: o muro est\u00e1 servindo muito mais como barreira visual, n\u00e3o como barreira ac\u00fastica.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/comitepopulario.files.wordpress.com\/2013\/04\/mapa-rio-google2.png?w=584&#038;h=287\" class=\"alignnone\" width=\"584\" height=\"287\" \/><\/p>\n<p>Esses fatos n\u00e3o s\u00e3o coincid\u00eancias, e a tentativa de invisibilizar os pobres e a pobreza no momento em que o Rio de Janeiro se prepara para receber grandes eventos internacionais tamb\u00e9m n\u00e3o se limita ao plano simb\u00f3lico. Para 30 mil moradores da cidade, a remo\u00e7\u00e3o virtual do mapa do Google est\u00e1 se tornando real. Segundo dados do Comit\u00ea Popular da Copa e Olimp\u00edadas, cerca de 8 mil pessoas j\u00e1 foram removidas, e cinco comunidades n\u00e3o existem mais. O procedimento \u00e9 semelhante em toda a cidade: envio de fam\u00edlias para periferia com oferta prec\u00e1ria de servi\u00e7os b\u00e1sicos, como transporte, baixo valor de indeniza\u00e7\u00f5es e forte press\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria.<\/p>\n<p>Um outro bra\u00e7o dessa pol\u00edtica se estabelece sob o discurso da ordem p\u00fablica, que com a mesma trucul\u00eancia mistura diferentes quest\u00f5es como estacionamento irregular, popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua e trabalhadores informais. No bairro da Gl\u00f3ria, onde foi instalada uma Unidade de Ordem P\u00fablica (UOP), h\u00e1 dezenas de guardas nas esquinas para que o famoso shopping ch\u00e3o, onde se podia encontrar antiguidades e quinquilharias sendo vendidas na cal\u00e7ada, n\u00e3o se instale mais. Os camel\u00f4s receberam autoriza\u00e7\u00e3o para trabalhar apenas em locais que ningu\u00e9m passa e sumiram, assim como a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua, que foi recolhida. O que acontece com essas pessoas? S\u00e3o levadas para abrigos long\u00ednquos, v\u00e1rias vezes. A estrat\u00e9gia \u00e9 cans\u00e1-las para n\u00e3o voltar mais, como disse o subprefeito Bruno Ramos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/comitepopulario.files.wordpress.com\/2013\/04\/campinho-19r.jpg?w=584&#038;h=390\" class=\"alignnone\" width=\"584\" height=\"391\" \/><\/p>\n<p>A UOP \u00e9 inspirada na UPP, as Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora que cada vez mais mostram sua face de controle militar do territ\u00f3rio ocupado e menos de seguran\u00e7a dos moradores. No dia 20 de mar\u00e7o, Matheus Oliveira Cas\u00e9, de 16 anos, foi morto pela pol\u00edcia pacificadora em Manguinhos. No dia 4 de abril, Ali\u00e9lson Nogueira, de 21 anos, tamb\u00e9m foi assassinado pela pol\u00edcia pacificadora, agora no Jacarezinho. As edi\u00e7\u00f5es online dos jornais falavam em tiroteio entre tr\u00e1fico e pol\u00edcia, mas Matheus foi morto ao receber um tiro de pistola de choque e Ali\u00e9lson com uma bala na nuca enquanto comia um cachorro quente. Muitos jornais simplesmente ignoraram o fato destacando na semana a viol\u00eancia contra turistas estrangeiros e como isso gera um impacto negativo para a imagem da cidade.<\/p>\n<p>A invisibiliza\u00e7\u00e3o que sai do plano simb\u00f3lico para o real atinge um p\u00fablico bem espec\u00edfico, a juventude pobre e negra da cidade, principal alvo do encarceramento em massa em curso no Brasil. Em 1995, havia 148 mil presos no pa\u00eds, n\u00famero que subiu para 473 mil em 2009. O Brasil possui hoje a terceira maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo e a pris\u00e3o come\u00e7a a virar neg\u00f3cio, com os pres\u00eddios privados. Como tudo se justifica pela realiza\u00e7\u00e3o da Copa do Mundo e das Olimp\u00edadas, foi anunciada a compra de caveir\u00f5es e a constru\u00e7\u00e3o de novos pres\u00eddios no Rio de Janeiro para a seguran\u00e7a dos grandes eventos. \u00c9 a solu\u00e7\u00e3o dada para essa parcela da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o serve \u00e0 cidade ol\u00edmpica, que deve ficar bem longe, nos conjuntos habitacionais constru\u00eddos fora da cidade, ou simplesmente sumir, presa ou executada pela a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/comitepopulario.files.wordpress.com\/2013\/04\/alielson-jacarezinho.jpg?w=584&#038;h=320\" class=\"alignnone\" width=\"584\" height=\"321\" \/><\/p>\n<p>Mas o brilho dos grandes eventos esportivos come\u00e7a a esmorecer, o marketing n\u00e3o consegue sustentar uma imagem constru\u00edda sobre base t\u00e3o fr\u00e1gil, e aos poucos a cidade real se imp\u00f5e. Para mudar a realidade do Rio de Janeiro n\u00e3o basta ostentar telef\u00e9rico em favela enquanto falta saneamento b\u00e1sico nas casas fotografadas pelos turistas. N\u00e3o basta acesso a bens de consumo se falta habita\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o basta habita\u00e7\u00e3o sem cidade. Para construir uma outra realidade social h\u00e1 muito trabalho pela frente, e no momento em que h\u00e1 recursos dispon\u00edveis para de fato se iniciar uma mudan\u00e7a profunda na cidade, eles s\u00e3o drenados para obras de prioridade question\u00e1vel ou para destruir a infraestrutura j\u00e1 existente, como no caso do Maracan\u00e3 e da Perimetral, sem qualquer debate p\u00fablico. O Rio de Janeiro est\u00e1 no caminho errado, e talvez por isso queira tanto esconder a pobreza da cidade. Mas como disse uma moradora da Mar\u00e9: \u201dO que adianta esconder? A gente existe, n\u00e3o adianta esconder n\u00e3o\u201d. Pois \u00e9, recado dado.<\/p>\n<p>* Renato Cosentino \u00e9 mestrando do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, trabalha na organiza\u00e7\u00e3o de direitos humanos Justi\u00e7a Global e participa do Comit\u00ea Popular da Copa e Olimp\u00edadas do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/comitepopulario.wordpress.com\/2013\/04\/15\/a-invisibilizacao-da-pobreza-e-dos-pobres-no-rio-olimpico\/\">http:\/\/comitepopulario.wordpress.com\/2013\/04\/15\/a-invisibilizacao-da-pobreza-e-dos-pobres-no-rio-olimpico\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Renato Cosentino* Uma campanha publicit\u00e1ria internacional da Petrobr\u00e1s exibiu em 2011 fotografias do Rio de Janeiro, de Nova York e de Paris a 6 mil metros de altura, em alus\u00e3o aos 6 mil metros de profundidade de onde a empresa ir\u00e1 extrair \u00f3leo da camada pr\u00e9-sal. 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