{"id":5512,"date":"2013-03-27T09:00:16","date_gmt":"2013-03-27T11:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/forumjustica.vlannetwork.com\/?p=5512"},"modified":"2022-09-04T21:16:20","modified_gmt":"2022-09-05T00:16:20","slug":"so-o-discurso-nao-e-suficiente-para-acabar-com-o-racismo-diz-kabengele-munanga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/so-o-discurso-nao-e-suficiente-para-acabar-com-o-racismo-diz-kabengele-munanga\/","title":{"rendered":"S\u00f3 o discurso n\u00e3o \u00e9 suficiente para acabar com o racismo, diz Kabengele Munanga"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/17736-kabengelesite.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/17736-kabengelesite.jpg\" alt=\"\" title=\"17736-kabengelesite\" width=\"250\" height=\"186\" class=\"aligncenter size-full wp-image-5513\" \/><\/a><br \/>\nMilitante do Movimento Negro e professor de Antropologia aposentado na USP, Kabengele Munanga debateu sobre a inclus\u00e3o racial no 2\u00ba Congresso do IBE, que ocorreu em Bel\u00e9m<\/p>\n<p>Recentemente aposentado ap\u00f3s 32 anos dedicados \u00e0 vida acad\u00eamica, Kabengele Munanga mant\u00e9m ativa a milit\u00e2ncia intelectual no Movimento Negro e participa de palestras pelo Pa\u00eds em que defende a\u00e7\u00f5es afirmativas. O estudioso foi um dos palestrantes do 2\u00ba Congresso Anual do Instituto de Estudos Brasil Europa (IBE), ocorrido no in\u00edcio de mar\u00e7o em Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>Nascido no antigo Zaire, atual Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, Kabengele chegou ao Brasil em 1975 para o Doutorado em Antropologia na USP. Em 1977 retornou ao seu Pa\u00eds de origem, mas por quest\u00f5es pol\u00edticas &#8211; na \u00e9poca vivia-se um per\u00edodo de ditadura -, n\u00e3o pode permanecer. De volta ao Brasil, lecionou na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Em seguida, estabeleceu-se como professor da USP e ingressou no Movimento Negro como pesquisador.<\/p>\n<p>Defensor das cotas, o estudioso questiona na entrevista abaixo o mito da democracia racial no Brasil, diz que n\u00e3o se considera um ativista negro &#8211; e sim um militante intelectual -, e explica porque acredita que o racismo brasileiro \u00e9 um crime perfeito.<\/p>\n<p>&#8211; Como sua trajet\u00f3ria o levou ao Movimento Negro no Brasil?<\/p>\n<p>Cheguei ao Brasil em 1975 para defender o Doutorado na USP, finalizando em 1977. Depois voltei ao Congo mas, por quest\u00f5es pol\u00edticas, n\u00e3o pude permanecer. Alguns meses depois voltei ao Brasil e comecei minha carreira acad\u00eamica como professor convidado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde fiquei de 79 a 80. Em 80 entrei na USP e me aposentei por l\u00e1. Portanto a minha entrada no Movimento Negro foi mesmo como pesquisador. N\u00e3o foi como ativista negro, mas militante intelectual. Tenho defendido as causas, realizado publica\u00e7\u00f5es como um estudioso engajado. N\u00e3o \u00e9 um discurso totalmente neutro.<\/p>\n<p>&#8211; O que acha das a\u00e7\u00f5es afirmativas que est\u00e3o sendo implementadas no Brasil nos \u00faltimos anos? O Pa\u00eds est\u00e1 no caminho certo?<\/p>\n<p>Estamos no in\u00edcio do processo. O Pa\u00eds conviveu muitos anos com o mito da democracia racial e, por isso, nunca implementou pol\u00edticas de inclus\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o negra. O pensamento era \u201cn\u00e3o somos racistas, n\u00e3o precisamos de pol\u00edticas de inclus\u00e3o.\u201d Apesar da luta constante do movimento negro, que passou de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, a verdadeira pol\u00edtica de inclus\u00e3o come\u00e7ou no governo de Fernando Henrique Cardoso. Na \u00e9poca o Brasil participou oficialmente da Confer\u00eancia de Durban (que ocorreu na \u00c1frica do Sul em 2001) contra o Racismo, a Discrimina\u00e7\u00e3o Racial e a Xenofobia. De l\u00e1 o governo voltou com a proposta de cotas. Em 2002, a Assembleia Geral do Rio de Janeiro adotou uma lei impondo pol\u00edtica de cotas com porcentagem de negros e brancos nas escolas p\u00fablicas. Foi o ponto de partida que fez com que a discuss\u00e3o alcan\u00e7asse \u00e2mbito nacional.<\/p>\n<p>&#8211; E as universidades acabaram adotando este modelo?<\/p>\n<p>V\u00e1rias universidades estaduais e federais se inspiraram, utilizando-se da autonomia universit\u00e1ria para adotar o sistema de cotas. A UnB foi a primeira federal. Depois vieram a UFBA e universidades do Sul do Brasil como as do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paran\u00e1. Ficou a resist\u00eancia nas universidades paulistas, como a USP, Unesp e Unicamp, e algumas universidades federais de Minas Gerais. Agora, com a lei aprovada pela presidente Dilma, todas as universidades federais s\u00e3o obrigadas a trabalhar com cotas. Mas a lei n\u00e3o atinge as estaduais.<\/p>\n<p>&#8211; Por que acredita que o sistema de cotas \u00e9 importante para o Brasil?<\/p>\n<p>Entre os brasileiros que t\u00eam diploma universist\u00e1rio, 97% s\u00e3o brancos, 1% asi\u00e1ticos e 2% negros e mesti\u00e7os. Apenas 2%. No entanto, eles representam mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o brasileira. H\u00e1 a\u00ed um problema a se resolver, um claro abismo. E esse problema n\u00e3o se resolve apenas com o discurso de pol\u00edticas universalistas da escola p\u00fablica de boa qualidade. Por isso este caminho de pol\u00edticas de inclus\u00e3o foi pensado. \u00c9 a porta, no modelo daquilo que foi feito nos EUA na d\u00e9cada de 60 e que conseguiu incluir os afroamericanos, reduzindo o abismo de 50% para menos de 10%. Acredito que o sistema de cotas \u00e9 um caminho de inclus\u00e3o r\u00e1pido. A UnB, por exemplo, em 10 anos recebeu mais negros do que em toda sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8211; Fala-se que, em pesquisas por exemplo, muitas pessoas teriam dificuldade de considerarem negras. Acredita mesmo nessa dificuldade?<\/p>\n<p>Acho que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma. A dificuldade s\u00e3o os intelectuais que tem. Os policiais n\u00e3o t\u00eam dificudade de saber que s\u00e3o negros, os zeladores dos pr\u00e9dios tamb\u00e9m n\u00e3o. S\u00e3o os intelectuais que t\u00eam dificuldade em um pa\u00eds onde existe discrimina\u00e7\u00e3o racial. Significa que quem discrimina sabe quem \u00e9 o negro. Isso \u00e9 na verdade um falso problema.<\/p>\n<p>&#8211; A criminaliza\u00e7\u00e3o do racismo \u00e9 um bom mecanismo para minimizar o problema?<\/p>\n<p>Sim, a lei \u00e9 importante. A pr\u00e1tica de discrimina\u00e7\u00e3o racial \u00e9 crime inafian\u00e7\u00e1vel. Tem de haver a lei para punir as pessoas e reprimir as pr\u00e1ticas racistas. Mas a lei sozinha n\u00e3o resolve tudo. \u00c9 por isso que o Supremo Tribunal Federal (STF) voltou com a constitucionalidade das cotas. Sabe que as leis s\u00e3o importantes, mas al\u00e9m deles \u00e9 preciso implementar pol\u00edticas p\u00fablicas de mudan\u00e7a material. Perante a lei somos iguais, mas \u00e9 uma igualdade formal, porque materialmente n\u00e3o somos iguais. Isso s\u00f3 se faz com pol\u00edticas p\u00fablicas, afirmativas.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor j\u00e1 chegou a dizer uma vez que o racismo \u00e9 um crime perfeito no Brasil. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u00c9 um crime perfeito porque quem o comete acha que a culpa est\u00e1 na pr\u00f3pria v\u00edtima. Al\u00e9m do mais, destr\u00f3i a consci\u00eancia dos cidad\u00e3os brasileiros sobre a quest\u00e3o racial. Nesse sentido \u00e9 um crime perfeito.<\/p>\n<p>&#8211; Algumas pessoas t\u00eam resist\u00eancia com a quest\u00e3o de cotas, acham que aumentaria a discrimina\u00e7\u00e3o. O que acha disso?<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma quest\u00e3o de consci\u00eancia, porque disseram para a elas que entrar com cotas \u00e9 como dizer que n\u00e3o s\u00e3o inteligentes para passar pela grande porta. Abrir a pequena porta seria discrimina\u00e7\u00e3o. Eu entrei na universidade, fui professor da USP, cheguei no topo da carreira, formei outros estudiosos. Mas o meu caso n\u00e3o \u00e9 como o da maioria. O sucesso individual n\u00e3o representa o sucesso coletivo. Essas pessoas n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia disso e acham que \u00e9 uma diminui\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica. Mas se voc\u00ea pensar nas v\u00edtimas do Holocausto, elas hoje recebem indeniza\u00e7\u00e3o mas n\u00e3o s\u00e3o diminu\u00eddas por isso. O que se faz s\u00e3o pol\u00edticas compensat\u00f3rias de inclus\u00e3o. Essas pessoas dizem isso porque a ideologia dominante botou na cabe\u00e7a delas que est\u00e3o se inferiorizando pelo fato de receber cotas.<\/p>\n<p>&#8211; Existe uma diferen\u00e7a na forma como o Congo e Brasil lidam com a quest\u00e3o racial?<\/p>\n<p>Os problemas nos pa\u00edses africanos n\u00e3o s\u00e3o de discriminia\u00e7\u00e3o racial, mas econ\u00f4mica. Porque se cria cada vez mais pobreza, uma minoria se enriquece roubando o dinheiro p\u00fablico. A quest\u00e3o fundamental \u00e9 da discrimina\u00e7\u00e3o de classe, porque a maioria da popula\u00e7\u00e3o africana \u00e9 negra. No Brasil o negro acumula duas discrimina\u00e7\u00f5es: a de classe e a de cor. O branco acumula s\u00f3 uma.<\/p>\n<p>Fonte: Assessoria de Comunica\u00e7\u00e3o do IBE<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.geledes.org.br\/em-debate\/colunistas\/17736-so-o-discurso-nao-e-suficiente-para-acabar-com-o-racismo-diz-kabengele-munanga\">http:\/\/www.geledes.org.br\/em-debate\/colunistas\/17736-so-o-discurso-nao-e-suficiente-para-acabar-com-o-racismo-diz-kabengele-munanga<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Militante do Movimento Negro e professor de Antropologia aposentado na USP, Kabengele Munanga debateu sobre a inclus\u00e3o racial no 2\u00ba Congresso do IBE, que ocorreu em Bel\u00e9m Recentemente aposentado ap\u00f3s 32 anos dedicados \u00e0 vida acad\u00eamica, Kabengele Munanga mant\u00e9m ativa a milit\u00e2ncia intelectual no Movimento Negro e participa de palestras pelo Pa\u00eds em que defende [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"anos":[],"projetos":[],"autorias":[],"eixos_tematicos":[],"locais":[],"pessoas":[],"estado":[],"academia":[],"sociedade_civil":[],"class_list":["post-5512","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5512","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5512"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5512\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17735,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5512\/revisions\/17735"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5512"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5512"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5512"},{"taxonomy":"anos","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/anos?post=5512"},{"taxonomy":"projetos","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/projetos?post=5512"},{"taxonomy":"autorias","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/autorias?post=5512"},{"taxonomy":"eixos_tematicos","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/eixos_tematicos?post=5512"},{"taxonomy":"locais","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/locais?post=5512"},{"taxonomy":"pessoas","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/pessoas?post=5512"},{"taxonomy":"estado","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/estado?post=5512"},{"taxonomy":"academia","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/academia?post=5512"},{"taxonomy":"sociedade_civil","embeddable":true,"href":"https:\/\/staging.forumjustica.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/sociedade_civil?post=5512"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}